Filhos do Estado
Por
Lídia Rezende
(7º período - jornalismo UNI-BH)
lidialavras@yahoo.com.br
Eu não vou
ensinar meus filhos a serem honestos.
Também não vou ensiná-los a serem bons,
pacientes, sensatos. Se depender de mim,
nenhum dos meus rebentos irá, sequer,
ouvir falar dos tais dez mandamentos.
Não roubar, não matar, tudo isso é
balela, crendice pura. Cá pra nós, hoje
os tempos são outros. Aliás, já faz
séculos que todo mundo sabe que o mundo
é dos espertos. Esse negócio de valor
moral, integridade, lisura, isso tudo é
retrógrado, ultrapassado. Ninguém chega
a lugar nenhum assim não, já percebeu?
Não sei
por que esse povo burro insiste em
querer ser íntegro. Que diacho!
Brasileiro acha lindo ser pobre e
limpinho. Gosta de falar que dorme com a
consciência tranqüila toda noite, apesar
dos perrengues. Apesar de subir em três
conduções lotadas para chegar ao
trabalho. Apesar de se matar em dois
turnos para comprar material escolar
para os meninos. Material que continua
novinho em folha porque a escola do
bairro está sempre em greve. Às vezes
falta cobertor no frio, falta água no
chuveiro, falta até comida na mesa e a
pessoa ainda acha que o crime não
compensa, que tudo o que for dela tem de
ser honestamente conquistado.
Isso, para
mim, é orgulho. Orgulho besta, diga-se.
Na verdade, isso é bem pensamento de
pobre e, no máximo, classe média baixa.
Nenhum rico pensa assim, pode ver. O
Renan não pensa, o Zé Dirceu também não,
o Marcos Valério muito menos. É bem
verdade que eu não tenho bala na agulha
igual a eles, mas me permiti aprender a
lição que eles ensinaram.
Eu
realmente queria que meus filhos, assim
como os deles (imagino eu), pudessem
estudar em um colégio interno da Suíça,
com uniforme elegante e comida de
qualidade todos os dias, cama macia,
hidromassagem, ginástica. Eu sonho alto
para as minhas crianças, ué. Que pais
não sonhariam?
Mas, como
a maioria, eu sei que não dá, o meu pé
está no chão de novo. Já coloquei na
cabeça que a Suíça é impossível. Mas
faço o que estiver ao meu alcance para
garantir uma vida boa para os meus
filhos. Já peguei três conduções lotadas
para chegar ao trabalho. Já me matei em
dois turnos para comprar material
escolar. Já faltou cobertor, água e
comida na minha casa, mas nenhum menino
deixou de ir à aula – quando tinha.
Ninguém ficou sem lápis, caderno e
borracha. Até régua e compasso eu
arrumei! E os livros, olha que sorte,
achei no lixão!
Só que
percebi que isso tudo é pouco. Essa luta
é ingrata, a recompensa é nenhuma. Todo
esforço não ia dar futuro para nenhum
moleque meu. O colégio público é
precário demais, o ensino é medíocre. E
não é uma vida de mediocridade que eu
queria dar a eles. Vida assim, basta a
minha. E é por isso que eu resolvi
pensar como Maquiavel. O fato é que os
fins justificam os meios mesmo, oras!
Meus
filhos podem estudar e levar uma vida
boa aqui no Brasil mesmo, não precisa
ser na Suíça. Ainda que eu não tenha
condições de pagar, o Estado banca.
Descobri que o governo gasta onze vezes
mais com um presidiário do que com um
aluno da rede estadual. Então a cadeia
acaba sendo uma boa opção, já que se meu
filho for parar lá, o governo vai
investir, por mês, mil e setecentos
reais nele, e enquanto ele fica na
escola, só cento e cinqüenta. Lá, ele
pode estudar e trabalhar. Não vai faltar
comida dia nenhum, nem água, ainda que
fria. Ouvi falar que uma socialite de
Brasília vive muito bem na cadeia.
É um
risco, eu sei. Mas viver aqui fora
também à custa do governo acaba sendo um
risco maior. Só quero garantir aos meus
queridos filhos uma chance de ser
alguém. É claro que vai me doer abrir
mão dos meus meninos, espero que não
achem que foram abandonados. Prefiro que
pensem que são filhos de pais separados.
Pari e criei os filhos do Estado. Agora
é a vez do pai fazer a parte que lhe
cabe.