Perfume da
Tranqüilidade
Por
Maíra Rocha
(7º período - jornalismo UNI-BH)
rpmaira@yahoo.com.br
É comum ouvir as pessoas falarem que estão estressadas.
Reclamam que não têm tempo para nada, já
que vivem trabalhando ou têm que cuidar
da casa e dos filhos. Fico pensando se
na época em que só os índios povoavam o
Brasil era a mesma coisa. E concluí que
o estresse só apareceu por essas bandas
quando eles trocaram sua tranqüilidade
por quinquilharias portuguesas.
Natureza, liberdade e paz, por espelhos.
Desde então, as coisas aqui se tornaram uma correria e cada
um teve que encontrar um jeito
particular de rememorar a vida tranqüila
e natural desses nossos antepassados.
Uns escolhem a ioga, outros preferem
tocar violão. As adolescentes e as
mulheres consumistas procuram os
shoppings. Os mais estudiosos se
satisfazem nos livros. Aqueles da
geração saúde juram que a academia lhes
faz um bem danado. E, eu, revelo aqui um
segredo: minha alegria é ir a
supermercados.
Desde menina, aqueles grandes galpões com suas longas
prateleiras me fascinavam. Lá,
diferentemente das academias, você não
tem que “puxar peso”, já que os
carrinhos com suas lépidas rodinhas te
ajudam com o serviço doído. A ordem do
seu itinerário é outra benesse desses
lugares: é você quem escolhe; não tem
que ficar observando tudo em seqüência
como nas páginas de um livro. E, o
melhor: ainda é uma das poucas lojas que
não tem nenhum vendedor chato por perto
dizendo: “posso ajudar”? Enfim, por
esses e outros motivos sempre os
enxerguei como templos, principalmente
aqueles bem grandes e que ficam abertos
24h.
Certo dia, numa noite de estresse e cansaço, resolvi
procurar um desses templos para me
apaziguar. Fui entrando e procurando
pela seção de congelados, a minha
favorita. Será que teria algo melhor do
que a praticidade de uma lasanha
congelada para me fazer feliz? Não
adiantou. Rodei pela seção de chocolates
instantâneos, cereais, biscoitos... e
nada. Até que resolvi, como tentativa
extrema, visitar uma seção na qual não
era comum eu dar o “ar da graça”: o
setor de limpeza.
Fui flanando pelos corredores até que me peguei observando
um peludo ursinho. Estava de frente à
prateleira de amaciantes. Arrisquei
sentir o perfume e fiquei extasiada.
Cada rótulo uma inscrição: Aroma do
Campo, Ervas Refrescantes, Pétala de
Jasmim, Orquídea, Raio de Sol. Voltei
para casa sossegada e feliz. Por um
momento, tive a sensação de estar na
natureza, bem perto de flores cheirosas,
ouvindo o barulho dos pássaros, ao lado
de uma cachoeira refrescante.
A modernidade nos tirou a vida serena em que nossos
antepassados viviam. Entretanto, nos
ofereceu muitas outras facilidades. Com
certeza, os índios nunca pensaram na
possibilidade de um “Aroma do Campo
enlatado”. Depois dessa estranha
experiência, tive a certeza de ter
encontrado o perfume da tranqüilidade, e
nunca mais desejei viver no tempo dos
tupiniquins.