A vida vale mais que
dez reais
Uma crônica sobre a
morte, ou sobre a banalidade da vida.
Por
Silvana Monteiro
(7º período - jornalismo UNI-BH)
contatodasil@yahoo.com.br
Hoje o
jornal tirou-me o fôlego. No ônibus, a mulher inquieta da
janela grita para a vendedora de tablóides no sinal: Eeeeeei
me dá um aí! Pega o jornalzinho e exprime um gemido de quem
viu algo terrível. Não contive a curiosidade e com o canto
dos olhos li em letras garrafais: “Morre ao tentar salvar o
filho”.
Diante do
título comecei a tecer as possibilidades para tal, e claro,
o primeiro motivo que veio em mente foi o tráfico. Depois,
com o jornal em mãos pude comprovar. Por causa de uma dívida
de R$10,00 um jovem de 19 anos e sua mãe foram mortos dentro
de casa na frente dos outros irmãos.
Enquanto os
ônibus e carros buzinavam no trânsito, apenas pelo título
fiquei imaginando a cena, tentando construir na cabeça o que
poderia ter acontecido. A mãe, no ímpeto da bondade, no zelo
de protetora e munida de intensa piedade, talvez tivesse
entrado na frente do revólver e dito: - Não mate meu filho!
Deixe que eu morra por ele. Mataram-na para depois executar
o filho.
Ou o
contrário, ao ver o filho morto talvez tenha se desesperado,
jurado vingança por sua cria, esbravejado, soluçado,
ganhando com isso um cala-boca para sempre. Ou apenas
decidido morrer junto com o filho e suplicado: - Matem-me
também. Os bandidos na doação do mal não hesitaram,
atenderam ao seu pedido, ofereceram-lhe a morte junto ao
rebento.
Notícias
assim têm tomado os semanários, mas a forma como algumas
acontecem são de tirar o fôlego. Depois, lendo a notícia vi
que o pior ainda estava por vir. Na casa, uma menina de 10
anos assistiu toda a cena e desesperada tentou socorrer a
mãe. Pensei em tudo o que havia passado na cabeça dessa
criança. No mínimo, que os natais, as páscoas e o dia das
mães não existirão mais, porque seu maior presente, a mãe,
não estará por perto.
Quando a
barbaridade adentra o ambiente familiar, o cenário da casa
torna-se ainda mais tortuoso para a memória. Ao ver-se
sentada na cama onde a mãe dormiu, ao pisar o chão onde o
sangue da mãe e irmão correram, é duro para uma menina de 10
anos. O mais doloroso não é só o sentimento de perda, mas o
sentido do inexplicável para quem ainda não entende e não
aceita o motivo de tal separação. Menina só, triste; sem
mãe, sem irmão, por causa de R$10,00. E pensar que
a vida vale mais, muito mais.