D. Viçoso, o
santo de Minas Gerais
Um
homem iluminado para o seu tempo
Merania de
Oliveira
(7º período Unibh)
merania.oliveira@gmail.com
No último
dia 13 de dezembro de 2007, na Catedral
de Mariana, o Arcebispo de Mariana e
presidente da CNBB, D. Geraldo Lyrio
Rocha, instalou o Tribunal Eclesiástico
para exame e avaliação de suposto
milagre, condição canônica para
beatificação de D.Viçoso. De acordo com
a Arquidiocese, trata-se da primeira
sessão de um terceiro processo. O
milagre legitimamente comprovado,
segundo as normas da Santa Sé, é uma
exigência relevante e demonstra a
aceitação divina para este pleito da
Igreja. Se aprovado este último processo
referente ao milagre, o Servo de Deus
será distinguido com o Decreto
Pontifício da Beatificação que lhe
permite um culto limitado, restrito a
uma determinada região. A última fase, a
canonização, propõe como modelo de
santidade à Igreja Universal aquele
Venerável, anteriormente beatificado.
A primeira
parte do processo, de caráter histórico,
encerrou-se com a aprovação pela Santa
Sé da Exposição escrita pelo historiador
e filósofo prof. Maurílio Camello,
abordando a vida e personalidade de
D.Viçoso. Este é conhecido por seu
humanismo, por lutar contra a escravidão
e por suas preocupações com o meio
ambiente. Desde que chegou ao Brasil, em
1820, ele já escrevia e pregava contra
as queimadas e o desmatamento.
Antônio
Ferreira Viçoso nasceu em Portugal, na
cidade de Peniche, aos 13 de maio de
1787. Foi ordenado sacerdote pela
Congregação da Missão, em 1818, na Sé
Patriarcal de Lisboa. Em 1819, o
Superior da Congregação da Missão,
atendendo a pedido de Dom João VI, para
que mandasse sacerdotes para o Brasil,
enviou o jovem Padre Viçoso e seu
co-irmão Padre Leandro Rabelo de Castro.
Foram encaminhados ao interior de Minas,
a um edifício de sólida construção,
deixado pelo ermitão Irmão Lourenço para
que fosse instalado ali alguma obra de
ação social. Naquele local, os dois
padres fundaram o Colégio do Caraça de
onde saíram, com o passar do tempo,
figuras importantes para a história
nacional, como os ex-presidentes Affonso
Penna e Arthur Bernardes.
Segundo o
prof. Maurílio Camêllo, responsável pela
Positio
super virtutis et fama sanctitatis
(Exposição
sobre as virtudes e fama de santidade),
que integra o
Processo de Beatificação, “a primeira
parte da vida de D.Viçoso nessa segunda
pátria (1820-1843) é dedicada aos
trabalhos de educador em colégios
(Caraça, Jacuecanga-SP e Campo Belo) e
missionário em paróquias, especialmente
da Província de Minas Gerais”.
Em 1843,
Padre Viçoso foi nomeado 7º Bispo de
Mariana, por apresentação do Imperador
Dom Pedro II, pois no Brasil, àquela
época, vigorava o regime de Padroado, ou
seja, a Igreja Católica era unida ao
Estado.
D.Viçoso
foi um grande educador. Além de criar o
Colégio Caraça, restaurou o Seminário de
Mariana material e pedagogicamente,
tornando-o um dos principais centros de
estudos de humanidades no país. Como
bispo, visitou por três vezes, à cavalo
ou de liteira, todo o território da
diocese, que, na época, era superior ao
da França. Conservaram-se dele mais de
quinhentas cartas: importantes
informações sobre a sociedade mineira do
século XIX.
Foi um
homem iluminado e avançado para seu
tempo. Preocupado com o procedimento dos
homens, mandou buscar em Paris, em 1848,
as Filhas da Caridade, educadoras
francesas, para criar, em Mariana, o
Colégio Providência, primeira escola
feminina de Minas Gerais. É dele a
seguinte frase: "Somente educando a
mulher, oferecendo-lhe uma boa condição
cultural, é que teremos uma sociedade
mais civilizada e preparada para dar à
pátria cidadãos completos. Não vos
esqueçais de que a mulher, sobretudo a
mãe, será sempre a primeira mestra".
Quanto à
escravatura, D.Viçoso sempre protegia os
negros, escrevia e pregava a favor da
abolição do regime escravocrata.
Publicou artigos e opúsculos, além de
sermões e catequeses que compõem hoje o
acervo do Arquivo Arquidiocesano de
Mariana. Para Maurílio, o bispo
desenvolveu “por 31 anos, longo e
profícuo trabalho pastoral, reformando o
clero, animando a vida religiosa da
diocese, construindo casas de educação e
asilos, defendendo a autonomia da Igreja
contra as intervenções abusivas do poder
civil (regime do Padroado) e contra as
agressões do liberalismo e da
maçonaria”.
D.Gil
Moreira, bispo de Jundiaí-SP, no dia da
sua posse no Instituto Histórico e
Geográfico de Minas Gerais, em 2007,
deu um depoimento sobre a vida do
bispo: “D.Viçoso, ao tomar posse como
bispo de Mariana, proibiu os padres de
serem proprietários de escravos e
pregava contra esta grande injustiça
social. Os negros residentes em Mariana,
em agradecimento a ele, quando de sua
chegada à cidade, lhe prestaram uma
homenagem. Levaram para o bispo feixes
de lenha, enrolados em cipó de São João,
no Palácio Episcopal e dançaram para
D.Viçoso.”
Ainda
citando a vida de D. Viçoso escreveu
D.Gil: “ao receber alguma vocação adulta
no Seminário, perguntava primeiro se o
candidato tinha escravos e se não
quisesse libertá-los antes do ingresso,
não o aceitava. Foi o que aconteceu com
certo advogado que se apresentou para
receber as ordens religiosas. Perguntado
se possuia escravos, respondeu
afirmativamente. E se estava disposto a
libertá-los, sua resposta foi negativa,
impedindo-lhe D.Viçoso, em razao disto,
a ordenaçao sacerdotal”.
Assim
viveu o homem que revolucionou a
formação do povo mineiro, no Século XIX.
Era a única voz de Minas ouvida pelo
Imperador D.Pedro II, expressando sempre
a este sua opinião com firmeza e
dignidade.
Carlos
Drumond de Andrade dedicou a Dom Viçoso
o poema Santo Particular que o Estado de
Minas publicou em 11 de maio de 1977.
Seu texto, escrito mais de um século
apos a morte de Dom Viçoso, vem
confirmar como os mineiros guardam a
memoria daquele que deu nome as cidades
e ruas e foi tao importante para nossa
Historia cultural, civica e espiritual.
Pequenino e profundo, vale a pena ser
lido o Santo Particular:
O santo da
família
Humilde e
forte, quem pode ele
No céu
mineiro
Áureo de
legendas?
Não é
canonizado? Tanto faz.
E é santo
à mão: nosso quase vizinho de Mariana.
“Santinhos”, “bentinhos” encarnados
Não
reproduzem sua imagem.
Nem
verônica nem dia de folhinha
Fazem
propaganda deste santo
Mas ele é
santo – papai que sabe – afirma.
Dom
Viçoso, na alpestre
Cartuxa de
Mariana
Fica entre
a gente e o Paraíso
Resolvendo
os negócios de papai.
Saiba mais:
-
D. Viçoso: um homem à frente do seu tempo