A pessoa é
para o que nasce
Documentário sobre a vida de três
irmãs cegas no Nordeste do Brasil
Luisa
Torres
(7º período Unibh)
luisa.torresc@hotmail.com
Maria, Conceição e Regina
são três irmãs do nordeste do País que
passam suas vidas tocando ganzás e
pedindo esmolas nas cidades e feiras da
região. Realidade comum há alguns
brasileiros. O que choca mesmo é que as
três são cegas. Se é que existe destino,
foi ele o responsável por cruzar o
caminha das irmãs com o diretor de
cinema Roberto Berliner.
Tudo começou durante as
filmagens da série de TV “Som da Rua”,
sobre músicos anônimos. Como na época,
em 97, elas já não tocavam mais seus
ganzás, a equipe tratou de providenciar
para elas. Enquanto isso eles tiverem a
oportunidade de conviver com as irmãs.
Tempo suficiente para impressionar todos
da equipe que estavam presentes e foi
assim que nasceu a idéia de fazer o
documentário sobre a vida delas. Um ano
depois, quando voltaram a Campina
Grande, Maria, conceição e Regina já
estavam conhecidas como “as irmãs
ceguinhas”, devido a repercussão que a
série de TV deu a elas.
O documentário gira em
torno da vida dessas cantoras anônimas e
acompanhar o cotidiano, suas
curiosidades etc. o efeito do cinema na
vida das ceguinhas também é acompanhado.
Durante as filmagens, tudo foi mostrado,
em forma de documentário. Tudo foi
feito, em sua maioria, com equipamento
doméstico, pelo próprio Roberto,
praticamente sem nenhuma assistência.
Indica assim tudo aquilo que é
característica de um documentário: o
registro. O diretor não aparece nas
imagens, somente a voz, quando ele
conversa com as ceguinhas. O
envolvimento entre equipe e personagens
é tão grande que chega a ser retratado.
O convívio e atenção que elas recebem,
faz com que uma delas, se apaixone por
Roberto.
O mais instigante e
acredito que a equipe soube conduzir
muito bem, é filmar pessoas que não tem
domínio da sua própria imagem. As três
não têm noção do impacto que uma imagem
traz. Documentá-la é viver trabalhar na
dificuldade de encontrar o limite de
explorar a intimidade sem, no entanto,
explorá-las além do que elas estariam
dispostas a aceitar. Mas com
naturalidade, elas foram muito
espontâneas e as cenas escolhidas foram
não só compatíveis com a realidade como
tiveram imagens de bom gosto, não as
deixando em situação ridicularizada.
Algumas cenas foram criticadas e geraram
polêmica, como quando uma das ceguinhas
atende o telefone com ele de cabeça para
baixo, provocando risadas na platéia.
A trilha sonora não
poderia ser melhor e própria para o
documentário. Nada mais justo do que ser
as próprias músicas da ceguinhas, que
durante o documentário, acabaram
gravando um CD com Gilberto Gil.
Engraçadas, as ceguinhas
têm uma história de vida bastante
difícil e dramática e o documentário
mostra isso com propriedade. Nascidas
numa família de camponeses sem terra,
passaram a infância toda mudando de
cidade e seguindo o pai que era
alcólotra. A mãe para ajudar em casa,
fazia artesanato e as ensinou a cantar
nas portas de igreja para pedir esmolas.
A morte do pai fez com que elas vivessem
do canto. A única irmã que casou foi a
Maria Barbosa. E não foi só uma vez não.
Foram duas, com deficientes visuais
também. Em um dos casamentos teve Maria
Dalva.
Em uma linguagem de fácil
compreensão, o documentário conquista a
todos pela simplicidade e carisma das
personagens. A fotografia do
documentário é linda e mostra não só a
cruel realidade da caatinga brasileira,
como belas paisagens do nordeste.
A última cena também é
polêmica e quebra com preconceitos. EM
uma bela praia deserta estão Maria,
Conceição e Regina, nuas, vivendo uma
liberdade e entrando correndo para tomar
um banho de mar. Cena tão inocente como
as três personagens. Elas aceitaram a
idéia sem o menor problema, prova de o
quanto elas se envolveram com um filme
que ajudaram a construir mas que nunca
poderão ver, so sentir.
O filme participou de
vários festivais, dentre eles Festival
do Rio, Festival internacional de
documentário em Amsterdam e a Mostra
Premiere Brazil, em Nova Iorque.
Saiba mais:
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