Simplesmente Djavan
Matizes, novo Cd de Djavan, traz, mais
uma vez, a musicalidade rara do cantor
em roupagens reinventadas
Josiane Dias
(7º período Unibh)
josi0310@yahoo.com.br
Novidades? Sim. A começar pela capa.
“Cadê o Djavan?” pode ser a primeira
pergunta feita por quem decidir comprar
o novo disco do cantor, principalmente
se for um fã incondicional ou um
observador atento.
A
ausência da imagem de Djavan na capa do
CD é no mínimo estranha aos olhos do
público fiel. São 31 anos de carreira,
dezoito álbuns e mais de 100 músicas
lançadas e a primeira vez que Djavan não
estampa o encarte de seus discos.
O
desgaste é natural, afinal os anos
passam para todo mundo, talvez seja por
vaidade, mas ela já foi tema de sua
última obra, mais intimista e voltada
para o mundo do artista. Fato é que, em Matizes, Djavan
privilegia a música e deixa isso claro a
partir da capa, esta é a razão. A
diversidade rítmica e a miscelânea de
gêneros continuam, Matizes traz
músicas com tons e formas diferenciadas
desde as letras às melodias.
Além
da capa, Djavan ousou ao fazer uma
música-protesto em contraste com ritmo e
timbre utilizados comumente. Uma forma
de mostrar que é possível criticar
seriamente sem insultos, gritos, urros
descomedidos e com qualidade sonora.
O
cantor brinca com as palavras em
Imposto e ataque à política exercida
no país quando diz “Pra quem vai tanto
dinheiro/ Vai pro homem que recolhe o
imposto/ Mas o homem que recolhe o
imposto/ É o impostor”.
Matizes
é uma coleção de canções que falam do
cotidiano de quem se dispõe a observar a
vida. A originalidade do disco vem da
abordagem dada às letras combinadas com
a melodia criada.
O
amor é a principal vertente do trabalho,
porém tratado com nova roupagem, ora
mais agressivo, ora mais delicado ditado
pela melodia. Djavan não deixa de lado
temas singelos voltados para a
natureza. O que une as músicas do disco
é justamente o fato de todas falarem
sobre a vida na sociedade.
Em
relação ao álbum anterior, Vaidade,
Djavan se mostra aberto às questões do
mundo, mais politizado e crítico.
Definir o gênero musical de Djavan
sempre foi um problema e em Matizes
a peleja permanece. Rock, jazz, samba,
bossa nova, soul, funk, blues ou,
simplesmente, Djavan.
Ao
ouvir Matizes é possível perceber
certas peculiaridades na criação das
canções. Na mesma linha que Imposto,
o clamor pela paz também tem lugar na
nova obra do cantor.
Com
um jogo melódico, Djavan brinca com
arranjo e timbre na música Por Uma
Vida Em Paz.
Para acentuar a gravidade da guerra
vivenciada no mundo, as palavras que
demonstram as conseqüências do descaso
com o planeta – mal, miséria, dano etc –
são faladas em tom mais grave.
O estilo,
pouco definido, mistura ritmos e
tendências que se transformam no jeito
de Djavanear, definido por Caetano
Veloso. Em
Matizes, Djavan combina instrumentos
para construir a história contada por
cada canção. Percussão, instrumentos de
sopro, cordas e bateria fazem a
narrativa, como nas rádio-novelas, em
que o som é a base de tudo, até mesmo a
frente das falas, enfatizam momentos
marcantes e definem o sentido da poesia
escrita.
Os fatos
cantados podem ser vivenciados através
da melodia que cresce, se torna forte em
certos períodos e amenizam quase
inexistentes em outros, o que é definido
pela harmonia criada em cada composição.
Exposto
como o disco mais autoral de Djavan,
Matizes é o terceiro produto
totalmente gerenciado pela gravadora do
cantor, a Luanda Records, o que lhe
garante total controle dos processos de
produção da obra.
Sendo
assim a autoria ligada, a princípio, à
observação do cantor, aos acontecimentos
e pela relação das músicas a fatos que
dizem respeito à vida dele - revelados
pelo cantor em entrevistas como o sítio
da música Joaninha e a vivência
dele no Rio de Janeiro, em Delírio
dos Mortais - , também representa a
autonomia presente em tantas outras
obras realizadas pelo artista.
O novo
álbum de Djavan sem dúvida é mais uma
obra especial do cantor, pelas letras e,
ainda mais, pela sonoridade. Quem espera
ouvir algo parecido com o CD anterior
se depara com a musica Fera, a
única de Matizes que se aproxima
do jeito mais intimista demonstrado por
Djavan em Vaidade.
Apesar da
miscelânea musical, Matizes é um
disco mais conciso. Vai do leve ao
agitado, numa seqüência crescente para
cair na suavidade de Fera, uma
música grande no tema, conteúdo e no
tempo, que merece destaque. Mais uma
vez, a ousadia de Djavan se faz presente
ao gravar uma canção, com mais de sete
minutos, nos dias atuais quando tudo
gira em torno da rapidez. O
conhecimento do cantor e a beleza de seu
trabalho se traduzem nesta música que
encerra Matizes com capricho e
zelo.
O álbum,
como tudo, não agrada a todos,
principalmente aos revolucionários
incondicionais que classificam
Matizes apenas como mais um disco
sem nenhuma novidade e aos nostálgicos
inveterados que sonham reviver os tempos
de Oceano, Lilás, Meu
Bem Querer e companhia limitada.
Agradando ou não, é inegável a qualidade
da produção poética e musical do CD.
Nuanças,
tons, cores, enfim, Matizes são
formas de expressar a diversidade
sonora encontrada no mais recente disco
de Djavan. Ouvir Matizes é sentir
a continuidade e o regresso, uma
musicalidade rara, às vezes,
indescritível, mais sensível ao coração
do que ao ouvido.
Saiba mais:
-
www.djavan.com.br
Leia também: